14 de novembro de 2014

KORZUS - LEGIÃO ININTERRUPTA



 Por Leandro Nogueira Coppi
Fotos: Pati Patah

Quando se fala em lealdade e comprometimento com a história do Thrash Metal nacional, dificilmente alguém não associará o Korzus a esses conceitos. O grupo se tornou um legítimo balzaquiano no cenário, graças aos 31 anos de uma carreira vitoriosa, estabilizada, jamais interrompida e muito menos corrompida, já que nem de longe flertou com modismos e nem se curvou diante dos percalços. Vivendo em clima de tranquilidade, graças também a estabilidade na formação que há seis anos se mantém intacta com os membros fundadores Marcello Pompeu (vocal) e Dick Siebert (baixo), os guitarristas Heros Trench e Antônio Araújo e mais o baterista Rodrigo Oliveira, o quinteto acaba de lançar o ótimo álbum, “Legion”, que tem o padrão Korzus de qualidade e isso significa que não precisa de maiores apresentações. O ‘frontman’ Marcello Pompeu recebeu a equipe do Brasil METAL História na audição do novo álbum para falar um pouco sobre esse lançamento e, de forma concisa e sem pápas na língua, nos responder a respeito do atual momento do cenário nacional, além de comentar a participação consagradora no festival “Rock In Rio”. Confira! 

O Korzus está com a formação estabilizada há seis anos. De que forma isso influenciou na construção de “Legion”?
Marcello Pompeu: Ah cara, a gente fica mais tranquilo. O ambiente é mais sossegado. Quando tem alguém descontente, o ambiente fica diferente... Não digo carregado. Porque meu, uma banda que já trocou mais de dez vezes de músicos, quer que se foda. Se “nego” não quer, tchau e bênção, colocamos outro! Se hoje a gente anunciar que queremos, por exemplo, um guitarrista, vai aparecer cem mil pessoas! Lógico, cem mil eu exagerei, mas aparecerão umas cem pessoas querendo entrar na banda. Então eu não tenho mais problema com isso. Em um ambiente quando está tudo arrumadinho, bonitinho, é uma maravilha e o do Korzus hoje é muito bom. Temos divergências, mas nada que vá botar em risco o lugar de cada um nada banda. São só divergências ou opiniões diferentes.

O novo álbum “Legion” traz um trabalho de guitarras muito bom. Riffs consistentes e solos com melodias marcantes. Isso aconteceu naturalmente, ou foi planejado durante o processo de gravação?
Pompeu: Não, não. Acho que o Heros (Trench) e o Antônio (Araújo) se envolveram em “Discipline Of Hate” (2010) e isso acabou sendo um desenvolvimento natural que refletiu no novo álbum. Mas dizer à eles, ‘faça isso’ ou, ‘faça aquilo’, não. Foi natural. As músicas foram sendo lapidadas, mas um solo é algo bem individual. Então eu acho que foi uma evolução individual deles. A única coisa que eu brincava ou enchia o saco deles era se a música era Korzus ou não.

No álbum “Mass Illusion” (1991), vocês trabalharam com o produtor Roger Rocha Moreira (Ultraje A Rigor) e no “KZS” (1995) com Steve Evetts. A partir de então, você e o Heros Trench (guitarrista) tomaram gosto e passaram a produzir os álbuns do Korzus e de diversas outras bandas. Como surgiu essa parceria no ramo da produção musical?
Pompeu: Com o Korzus foram só três álbuns até agora, mas temos mais de quinhentos! Olha, a parada é a seguinte, há vinte anos comecei a trabalhar nessa área, juntando amigos e tive a oportunidade de produzir o primeiro álbum do Siegrid Ingrid (N.R.: “Pissed Off” (1995)) e dali por diante eu percebi que isso era algo que eu poderia fazer paralelamente ao Korzus. Aí começou a aparecer outra, outra e mais outra e aí cheguei a conclusão de que eu tinha que ter o meu próprio estúdio, pois até então eu estava produzindo em outros lugares. Vinte anos depois, posso ver que de repente é uma profissão, uma coisa rentável e estou trabalhando na cena. Hoje, no Heavy Metal nacional, talvez eu seja o produtor que mais tem prêmios.



“Pô, poder participar do maior festival de música do mundo, para mim é a coroação de uma carreira inteira.”  
MARCELLO POMPEU


Já aconteceu de você trabalhar com uma banda que você tenha percebido que não estava pronta para entrar em um estúdio de gravação?
Pompeu: Para mim não existe isso, cara. Eu faço uma pré produção e a faço ficar pronta.

O Korzus começou a carreira compondo em português, mas mudou para o inglês a partir do EP “Pay For Your Lies” (1989). Nos últimos álbuns vocês retomaram um pouco disso, incluindo músicas cantadas em português como “Catimba”, “Correria”, “Peça Perdão”, “Hipocrisia” e agora em “Legion” vocês incluíram “Vampiro”. Essa tradição será sempre mantida?
Pompeu: A gente tem uma necessidade de fazer isso. Acho que essa tradição nunca mais vai sair. Ás vezes pode ser uma ou até duas músicas, logicamente que um álbum inteiro cantado em português não, senão fica uma coisa ridícula. Neguinho iria falar: ‘você fazia em português, depois inglês, agora volta para o português de novo?’ (risos). Para mim, seria falta de personalidade. Mas a gente acha muito importante ter algo em português para as pessoas entenderem o que retrata a sua carreira, sobre o que você está querendo falar nas suas músicas. Então, isso é uma forma de sincronizar, ás vezes em uma ou duas músicas, uma ideia para aqueles que não entendem inglês, que é a grande maioria. Muitos repetem o que ouvem, mas não sabem do que eu estou falando. Sendo assim, isso é uma forma de as pessoas entenderem como é que é a música do Korzus e como é a nossa escrita.

Independente do que muitos possam dizer a respeito, é muito legal quando vemos uma banda representando o Metal brasileiro em cima do palco do “Rock In Rio”, um festival que é renomado mundialmente. O Korzus finalmente marcou presença na edição de 2011. Como foi participar daquela edição?
Pompeu: Foi maravilhoso, cara! Na verdade eu não fiquei sabendo de nada, pois eu estava em turnê pela Europa e quando eu cheguei ao Brasil é que fui saber realmente do que tinha rolado. Para a gente foi um momento único, né? Pô, poder participar do maior festival de música do mundo, para mim é a coroação de uma carreira inteira. Agora está fácil para quem for tocar no “Rock In Rio”, porque nós, o Angra e o Sepultura fizemos um bom trabalho ali no palco “Sunset”, a ponto do “homem” lá (N.R.: Pompeu refere-se a Roberto Medina, idealizador do festival) olhar e ver que vale à pena. É bom para abrir espaço, tem esse lado também.


                  “Todos vangloriam o passado, mas a coisa andava a passos de lesma.” 
                   – MARCELLO POMPEU

Já que você falou a respeito de turnê na Europa, como está para o Korzus essa situação em relação a shows fora do país?
Pompeu: No momento a gente está em negociação, com algumas datas no Mercosul, na Itália e na Holanda. Mas não vai virar. A América do Sul é outro papo, mas Itália e Holanda creio que ainda não. Nós vamos escolher uma turnê, a época certa e com quem fazê-la. Para a gente não pode ser qualquer “coisinha”, tem que ser bem planejado.

Vejo que no Brasil ainda estamos longe de ter uma cena satisfatória devido a escassez de público em eventos nacionais. Inclusive, algumas bandas têm se mobilizado e organizado os seus próprios festivais, como nos casos do Executer e do Panzer, por exemplo. Mas, infelizmente, nas últimas edições o número de pessoas presentes foi aquém do que o Metal nacional merece. O próprio “Peso Brasil”, organizado pelo Ricardo Batalha (editor-chefe da revista Roadie Crew), não mais acontecerá por esse motivo. Isso é um sinal de que enfrentaremos um período de “vacas magras” no cenário nacional?
Pompeu: Eu não concordo. Por exemplo, a segunda edição do “Panzer Fest”, que aconteceu no Blackmore Rock Bar, lotou. O problema do Metal no Brasil é o seguinte, todo mundo quer as coisas para hoje. Eu estou no Metal há 31 anos, se eu tivesse tido esse tipo de cabeça lá no começo da minha carreira, teria parado. Olha, por exemplo o “Roça’n’Roll”, que é um grande festival. Como começou aquilo? Através dos amigos que foram espalhando e hoje é um festival que tem mais de dez anos e nos últimos quatro ou cinco anos, se tornou gigante. Tudo é uma questão de você tentar, de montar uma logística, montar um esquema de divulgação e investir. A gente fez um investimento. Agora, você não pode falar que o Metal está no limbo ou que vai acabar, porque é mentira. Eu venho lá do começo e hoje é a melhor fase que o público tem na mão. O que falta é cabeça. Todos vangloriam o passado, mas a coisa andava a passos de lesma. Em relação a quando comecei, posso dizer que hoje temos milhões de fãs, porque a coisa só está andando agora. Você viu quantas pessoas temos aqui hoje falando de Metal? (N.R.: A entrevista foi realizada em um Pub, em plena segunda-feira) Naquela época não havia ninguém. ‘Ah, mas éramos todos mais unidos’... Lógico, éramos 300 ou 400. Sempre os mesmos. Você tinha o telefone de todo mundo. No meu show, no do Vírus, do Salário Mínimo e do Cérbero, eram sempre as mesmas pessoas. Antes os shows eram a minha banda e a galera, outras bandas e a mesma galera. Era isso! Falar que hoje o público é desunido? Não é desunido, é que tem muita gente, não sabemos quem é quem. A gente sabe que o público de Metal não é burro. Ele sabe quem é bom e quem é ruim, quem tem qualidade e quem não tem. O Brasil é rota internacional de shows e hoje a comparação não é mais Korzus com Salário Mínimo e sim com Kreator, com Slayer. Agora, neguinho continua lá “tupiniquim”, “anos oitentão”. Você veja o U.D.O., o velhinho com a estrutura dele destrói, cara. Então, nós bandas, temos que ter esse tipo de estrutura e qualidade. Olha só, vou te falar, só em um show, acabo gastando dois mil reais só de equipe. Mas vai ao meu show para você ver como é a luz, o som etc... Isso que está rolando aqui hoje (N.R.: Pompeu refere-se a audição do álbum “Legion”, para a impresa), foi feito por ele (N.R.: apontando para o assessor), que trabalha para mim. Lógico, eu sei que têm muitas bandas que não têm condições, mas façam valer a sua qualidade. Tem banda que não quer gastar duzentos e cinquenta reais por mês, mas para tomar pinga tem! Tem muita gente enaltecendo o que não existe. Eu não vou ficar aqui dando lição de moral em bandas, o tempo se encarrega disso. Tem uma molecada nova que está ligada nesse lance da qualidade, que investe dinheiro. Eu que trabalho em estúdio vejo isso.

Para finalizar, nesses 31 anos de carreira, o Korzus conquistou grandes feitos, como o Rock In Rio, que falamos anteriormente. Existe algo que ainda falte para a banda conquistar?
Pompeu: Ah, claro... Sempre tem. O que a gente acha que falta é em termos de cena. A gente quer deixar a cena para a nova geração, mas de um jeito que nunca foi. De um jeito profissional, inteligente, forte e que traga resultados de qualidade. Então a gente vai lutar até onde pudermos para que quando for passado, esteja em boas mãos.

Agradecimento: Costábile Salzano Jr. (The Ultimate Music) e Pati Patah.

Um comentário:

  1. Pompeu brother, amigo ...e rocker. parabéns , grande entrevista

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